terça-feira, janeiro 31, 2017

para não esquecer os filmes



Duas cenas me comoveram profundamente em Kes (Ken Loach, 1969). Na primeira, Billy, o protagonista que vive na periferia de uma cidade inglesa sob violência física e simbólica do mundo, está em uma aula de inglês ou literatura e conta aos colegas de sala sobre o falcão que cria e adestra com muita obstinação. Ali, Billy é a prova de como uma atividade que nada tem a ver com uma educação formal pode ensinar. Criar e adestrar o falcão é também a pequena alegria de Billy numa realidade tão dura. Na segunda cena, o mesmo professor da aula de inglês ou literatura tira Billy de uma briga e conversa com ele. Billy faz um desabafo humano. Desabafo, parece-me, do diretor por mais humanidade. Ken Loach faz este apelo também em Eu, Daniel Blake, de 2016.

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para não esquecer os filmes


Para os não adeptos do poli-amor, talvez A Comunidade (Thomas Vinterberg, 2016) vá às últimas consequências da vida em comunidade. Um coletivo resolve dividir uma casa, quando o casal que primeiro tem a ideia de dividi-la se separa e a nova namorada se junta à comunidade e passa a conviver com a ex-mulher. É um bom filme, mas poucas questões da vida em comunidade são exploradas na trama. E algumas questões são muito rapidamente resolvida. Este é mais um filme do dinamarquês Thomas Vinterberg que coloca as famílias nessas situações-limite, como em Festa em Família (1998) e A Caça (2012), seu melhor filme.

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terça-feira, janeiro 24, 2017

para não esquecer os filmes



"Caos Calmo" (Antonio Luigi Grimaldi, 2008) é um desses filmes que se você não está com vontade de ver nenhum estilo de filme especificamente pode ver este e vai gostar. A história começa a partir da morte de uma mulher, que deixa marido e filha pequena. A partir daí, o pai vai aprender tudo sobre como conviver com a filha e exagera: fica na porta da escola, diariamente, enquanto aguarda o término das aulas da menina. Nisso, várias relações são criadas a partir da estadia do homem na praça em frente à escola. Ora a praça vira um escritório de trabalho, ora vira um lugar de descanso, ora algum personagem de sua vida pessoal aparece. O filme tem suas delicadezas.

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para não esquecer os filmes


O que eu mais gostei em "Fora do Jogo" (Jafar Panahi, 2006) foi o fato de ser um filme iraniano feminista. Que a história é bem contada, que os iranianos fazem mesmo os meus filmes favoritos, são detalhes. Como em "Balão Branco" (JP, 1995), o "Fora do Jogo" ocorre em tempo real (ou quase), no tempo de um partida de jogo de futebol. Um grupo de garotas que não podem ir ao estádio se vestem como meninos para ver o jogo, mas são barradas na entrada. Passam os 90 minutos numa negociação com os guardas. A proibição da qual elas são vítimas parece absurda para nós, ocidentais brasileiras, mas, se repararmos bem, somos ou fomos, num passado recente, tão repreendidas quanto elas. O filme mostra as limitações sociais que as mulheres do Irã sofrem, mas mostra também como elas, com bom humor, atravessam isso.

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terça-feira, janeiro 17, 2017

para não esquecer os filmes



Filmes non-sense não são muito o tipo de filme que eu gosto, mas quando é bem feito... O difícil é conseguir sustentar uma falta de noção do começo ao fim. Em "Animal Político", do diretor pernambucano Tião, ele tenta, mas não gostei. Uma vaca é a protagonista e narradora da história, mas no meio do filme, a vaca, que aparecia nos cenários mais inusitados - cabeleireiro, restaurante, escola -, se transforma numa vaca bípede. Há ainda uma narrativa paralela sobre uma caucasiana numa ilha deserta que não tem muito sentido. E o filme acaba por se perder. Ele fresca com algumas coisas, com a ABNT, por exemplo, faz alguns gracejos, mas o título promete muito, o argumento promete mais, mas fiquei a me perguntar, que filme foi este?

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para não esquecer os filmes



Durante a Mostra Expectativa-Retrospectiva do Cinema do Dragão do Mar, vi "Eu, Daniel Blake", do diretor inglês Ken Loach, de quem eu nunca tinha visto um filme sequer. Um carpinteiro recém-infartado faz um périplo para conseguir um auxílio financeiro por conta da saúde debilitada. Detalhe: a médica dele diz que ele ainda não pode trabalhar, mas a perícia do governo não concede o benefício, pois o considera apto ao trabalho. Durante os 97 minutos do filme, acompanhamos angustiados a peleja de Dan, que vive momentos de ternura com Katie, mãe solteira de duas crianças, que chega à Newcastle também com dificuldades financeiras, vítima do governo. No final do filme, todo mundo engole seco não apenas o governo da Inglaterra, retratado do filme, mas o nosso governo e o que vem por aí.

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para não esquecer os filmes



O que eu achei mais interessante em "Moana: um mar de aventuras", que vi com os meus sobrinhos sexta-feira (13 de janeiro), foi a religação com a natureza que precisa ser feita. O filme conta a história de Moana, uma nativa escolhida pelo mar para restaurar a natureza. Essa coisa de escolhida eu acho um atraso de vida, mas vamos pra frente. Moana enfrenta o mar - com momentos de dificuldades e frustração, que até os escolhidos enfrentam - e não é uma princesa clássica da Disney. Outro avanço. Qualquer avanço nos filmes da Disney já é bom, já que as crianças vão ver os filmes de todo jeito. Fazia anos que não via um filme da Disney e sempre penso que tem algo ruim por traz deles. Neste não foi diferente. Para além da "escolhida" para restaurar a natureza, as pessoas do Pacífico acusaram a Disney de lucrar com a exploração de um mito da região. Penso que seja motivo, sim, de incômodo para os povos das ilhas do Pacífico. 

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terça-feira, janeiro 10, 2017

para não esquecer os filmes


Já li mais sobre Cláudio Assis do que acompanhei seus filmes. Por Amarelo Manga, que vi recentemente, e pelas entrevistas e matérias que li com e sobre ele, jamais imaginei que ele fizesse um filme como Big Jato, baseado no livro de Xico Sá. O filme, que se passa no interior de um Brasil pobre, traz uma assepsia que incomoda. Nada me comoveu no filme, nem o menino incompreendido pelo seu sertão, nem o tio anarquista rock-n-roll que adora Beatles, nem o pai do menino que bebe cachaça e limpa fossas, nem a mãe do menino que só reclama do marido que bebe cachaça, nem os irmãos do menino que só arengam, nem uma paquera-crush do menino que tem um aparelho celular num filme que parece se passar nos anos 70. Nem os clichês, nem a obviedade, nem a beleza do Vale do Catimbau (PE), com o personagem ali numa crise existencial mal interpretada. Fico pensando que ou Cláudio Assis não sabe adaptar filme pro cinema ou é muito urbano e não sabe o que é o sertão, embora seja quase um homem do Sertão.

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domingo, janeiro 08, 2017

para não esquecer os flmes


Revi Habemus Papam, de Nanni Moretti, sobre um cardeal que entra em crise após ser escolhido para o pontifício. A complexidade boa do filme é colocar em xeque a fé como garantia de todas as certezas humanas.

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para não esquecer os filmes


O filme mais bizarro que vou ver em 2017 talvez eu vi ontem: Dream, de Kim Ki Duk. Dos outros três filmes que vi de Kim Ki Duk, o que realmente gostei, e muito, foi Primavera, Verão, Outono, Inverno e... Primavera. Mas nada tão bizarro como Dream, embora tenha um bom argumento. Uma sonâmbula executa o que um  homem desconhecido sonha. O homem sonha sempre buscando sua ex-namorada, que o deixou desolado. Já a mulher busca o ex-namorado que odeia. A péssima atuação dos atores, os artifícios que os dois usam para se manterem acordados e alguns simbolismos forçados dão ao filme um tom amador que incomoda.  

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quinta-feira, janeiro 05, 2017

para não esquecer os filmes


Assisti ao filme A Cidade Está Tranquila, do diretor francês Robert Guédiguian. A história se passa em Marseille, cidade litorânea, aparentemente tranquila, mas cheia de violência contida, cheia de conflitos e questões pessoais assolando a vida difícil das pessoas. A narrativa central - o filme acompanha vidas que se cruzam de certa maneira - conta a história de uma mãe que tenta amenizar os danos do vício da filha, que se prostituía para comprar heroína. Para acompanhar a necessidade de entorpecimento da filha mantendo-a em casa, a mãe também começa a se prostituir.

O fim de um casamento, um ex-estivador agora taxista, um fora-da-lei, um traficante angustiado e um garoto que se apresenta à beira mar para conseguir comprar seu piano são outros personagem que compõem o cenário de Marseille.

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desabafos urbanos

26 de dezembro de 2016

Tempo de melancolia, Sobral. Fui a um supermercado perto da casa onde nasci e morei até os 6 anos. Sem compromisso e sem pressa, resolvi passar na minha antiga rua, ver a casa, a rua, a sombra da árvore que era garagem para o Fusca branco da mamãe. Mas não achava. Mesmo com a consciência de que tudo que era imenso naquela época agora pareceria mirrado, quanto mais eu procurava, menos reconhecia aquele bairro, aquelas ruas, a ausência das árvores. Passei pela rua que julgava ser a minha, mas era outra. Procurei o colégio que tinha em frente e não vi. Decidi partir para a exatidão: confirmar pelo nome se aquela rua que a memória do trajeto tinha me levado era mesmo a minha. Procurei uma placa que me devolvesse a rua da infância. Rua Coronel José Silvestre, estava escrito. Era a minha rua. Aquela que eu não queria aceitar era, sim, a rua que eu tanto queria achar. Mas o colégio que tinha em frente à minha casa não era mais o colégio amarelo com uma entrada de terra batida, era agora uma daquelas construções gigantescas e padronizadas do governo do estado e engoliu a casa do Seu Carioca, nosso vizinho gente boa que morreu de um ataque do coração quando eu ainda era criança. Arrancaram todas as árvores. A minha casa agora faz parte de um conjunto de casas iguais, uma colada na outra, cada uma pintada de uma cor diferente berrante e de mal gosto. Não soube dizer qual era a minha. Voltei pra casa transtornada: "mãe, a gente morava mesmo na rua Coronel José Silvestre!?"

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terça-feira, janeiro 03, 2017

para não esquecer dos filmes


No dia 30 de dezembro de 2016, fui ao cinema ver o filme O Que está Por Vir (L'Avenir), da diretora francesa Mia Hansen-Love. É um filme previsível. Nas primeiras cenas já se sabe que o marido trai a mulher e que ela passará por uma transformação. Afinal, o título já diz o que está por vir. Daí é apenas observar de que maneira ela, a protagonista (Isabelle Hupert), vai se libertando da vida que tinha com o marido. Livros saindo da estante e a maior falta que ela sentiu do fim do casamento foi da casa onde costumavam passar as férias. Um estar por vir sem turbulências e sereno. Um filme bem francês.

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para não esquecer dos livros

Terminei de ler O Papel de Parede Amarelo, de Charlotte Perkins Gilman, um clássico da literatura feminista. É um conto, narrado em primeira pessoa, sobre uma mulher que tenta se libertar da situação opressora que vive com o marido e a família. A narradora, metaforicamente, tenta libertar uma mulher presa no papel de parede de uma casa em que está hospedada temporariamente.

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para não esquecer dos livros

O último livro que li em 2016 foi A Resistência, de Julián Fuks, um desses jovens escritores contemporâneos brasileiros que, depois deste livro, vou acompanhar com atenção. O livro ganhou o Jabuti de 2016 na categoria romance. Narrado em primeira pessoa, conta a história de uma família que tenta compreender e integrar um filho adotivo. O narrador é irmão do filho adotivo e passa o romance em busca do momento em que "perdeu" o irmão. O exílio da família da Argentina para o Brasil é o cenário onde a história de vida da família se desenvolve, com toda a complexidade do exílio. Mas não é um livro sobre ditadura; ela aparece apenas como as feridas que deixa na vida das pessoas.

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para não esquecer das frases

"Es tan lindo saber que usted existe" (Mário Benedetti)