desabafos urbanos
Hoje levaram-me, de assalto, o aparelho de MP3 que me distraia nas caminhadas matinais e vespertinas. Porém, o curioso é que, quando somos assaltados sem violência, nos sentimos privilegiados, uma espécie de escolhido, iluminado e protegido. Tanto é que passei a caminha inteira, na ausência da música, pensando como contaria meu assalto como uma pilhéria, enfeitando o rápido diálogo que tive com o assaltante, no qual, assustada e raivosa, chamei-o de “abestado”. Desse jeito: “Seu abestado, não é celular não!”. Depois que ele descobriu que o apurado havia sido pouco, ele me solicitou os fones de ouvido. Já tendo analisado a situação e sabendo que não corria risco de vida, neguei a ordem, disse que os fones estavam quebrados. Ele disse: “Ai, é?”. Eu repliquei um “estão!”, ele se afastou e eu dei mais um grito fraco: “Abestado!”, com uma intimidade quase de amigo, um quase a-gente-se-vê-por-aí.
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