desabafos urbanos
26 de dezembro de 2016
Tempo de melancolia, Sobral. Fui a um supermercado perto da casa onde nasci e morei até os 6 anos. Sem compromisso e sem pressa, resolvi passar na minha antiga rua, ver a casa, a rua, a sombra da árvore que era garagem para o Fusca branco da mamãe. Mas não achava. Mesmo com a consciência de que tudo que era imenso naquela época agora pareceria mirrado, quanto mais eu procurava, menos reconhecia aquele bairro, aquelas ruas, a ausência das árvores. Passei pela rua que julgava ser a minha, mas era outra. Procurei o colégio que tinha em frente e não vi. Decidi partir para a exatidão: confirmar pelo nome se aquela rua que a memória do trajeto tinha me levado era mesmo a minha. Procurei uma placa que me devolvesse a rua da infância. Rua Coronel José Silvestre, estava escrito. Era a minha rua. Aquela que eu não queria aceitar era, sim, a rua que eu tanto queria achar. Mas o colégio que tinha em frente à minha casa não era mais o colégio amarelo com uma entrada de terra batida, era agora uma daquelas construções gigantescas e padronizadas do governo do estado e engoliu a casa do Seu Carioca, nosso vizinho gente boa que morreu de um ataque do coração quando eu ainda era criança. Arrancaram todas as árvores. A minha casa agora faz parte de um conjunto de casas iguais, uma colada na outra, cada uma pintada de uma cor diferente berrante e de mal gosto. Não soube dizer qual era a minha. Voltei pra casa transtornada: "mãe, a gente morava mesmo na rua Coronel José Silvestre!?"
Tempo de melancolia, Sobral. Fui a um supermercado perto da casa onde nasci e morei até os 6 anos. Sem compromisso e sem pressa, resolvi passar na minha antiga rua, ver a casa, a rua, a sombra da árvore que era garagem para o Fusca branco da mamãe. Mas não achava. Mesmo com a consciência de que tudo que era imenso naquela época agora pareceria mirrado, quanto mais eu procurava, menos reconhecia aquele bairro, aquelas ruas, a ausência das árvores. Passei pela rua que julgava ser a minha, mas era outra. Procurei o colégio que tinha em frente e não vi. Decidi partir para a exatidão: confirmar pelo nome se aquela rua que a memória do trajeto tinha me levado era mesmo a minha. Procurei uma placa que me devolvesse a rua da infância. Rua Coronel José Silvestre, estava escrito. Era a minha rua. Aquela que eu não queria aceitar era, sim, a rua que eu tanto queria achar. Mas o colégio que tinha em frente à minha casa não era mais o colégio amarelo com uma entrada de terra batida, era agora uma daquelas construções gigantescas e padronizadas do governo do estado e engoliu a casa do Seu Carioca, nosso vizinho gente boa que morreu de um ataque do coração quando eu ainda era criança. Arrancaram todas as árvores. A minha casa agora faz parte de um conjunto de casas iguais, uma colada na outra, cada uma pintada de uma cor diferente berrante e de mal gosto. Não soube dizer qual era a minha. Voltei pra casa transtornada: "mãe, a gente morava mesmo na rua Coronel José Silvestre!?"


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