Quarta-feira, Dezembro 23, 2009

22 músicas que me embalaram 2009

Foi e não foi um ano musical, este de mudanças. As músicas serviram muito para cravar na memória os vaivens do meu ano. Vaivens que atrapalharam minha audição, mas que não me impediram de sofrer dependência de certos CDs. A ordem não está cronológica, mas em ordem alfabética. Clicando nas músicas é possível ouvir 30 segundos de cada. A lista pode estar repetitiva; repetitiva no sentido de ter duas músicas do mesmo CD, mas o ano foi assim também.

A cor amarela (Caetano Veloso)

Altar Particular (Maria Gadú)

A noite do meu bem (Dolores Duran)

Aqui em casa (Duani Martins e Mariana Aydar)

Bebê (Hermeto Pascoal)

Brigas (Jair Amorim e Evaldo Gouveia)

Canteiros (Fagner)

Dois de fevereiro (Dorival Caymmi)


Escravo da alegria (Mutinho e Toquinho)


Estrela (Vander Lee – na voz da Bethânia)

Fim de caso (Dolores Duran)

Impossível acreditar que perdi você (Cobel e Márcio Greyck)

Ingenuidade (Serafim Adriano – do CD Zii e Zie do Caê)

Keep me in mind (Rodrigo Amarante e Fabrizio Moretti)

Manhã Azul (Duani Martins e Nuno Ramos)

Nada disso é pra você (Clima e Rômulo Fróes – do CD Peixes, Pássaros, Pessoas da Mariana Aydar)

Ojos malignos (Juan Pichardo Canbier – cantada pela Marina de La Riva)

O samba me persegue (Duani Martins – do CD Peixes, Pássaros, Pessoas da Mariana Aydar)

Palavra de Mulher (Chico Buarque)

Sem cais (Caetano Veloso e Pedro Sá)

Shoulder to shoulder (Rodrigo Amarante e Fabrizio Moretti)

Unattainable (Rodrigo Amarante e Fabrizio Moretti)

Sexta-feira, Setembro 11, 2009

Dos livros que leio



“eu gosto de ficar sozinha, gostava, né? saía sozinha, sozinha andava, sozinha saía na carreira, sozinha arremedava a mata, sol no peito, sol nas costas, nunca me perdi, sozinha arremedo o caminho, procurando, sei lá o que procuro, trepo nos paus sozinha, alto eu vou, alto, lá no alto vejo o dossel da mata, verde e mais verde a morrer de tanto verde, um verde sem começo nem fim e meu coração se apequena, aonde vai dar aquilo? o segredo está dentro da lonjura, o que existe lá longe? além de onde eu já fui, tão longe o que haverá? o que haveria de haver? do lado de lá, só do lado de lá, longe, longe, lonjura, eu demoro ali no alto do pau a matutar, matutar, matutar, matutar...”

(Yuxin, de Ana Miranda)


ps. hoje eu estou assim: só matutando.

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Quarta-feira, Setembro 02, 2009

Duvido

Quando todas as angústias do mundo prejudicam o meu juízo, fecho os olhos bem fortes e rogo por viver numa cidade do interior, onde a praça principal fica em frente à igreja da matriz, e o maior divertimento é sentar ao sereno da noite, em cadeiras de balanço, a falar da vida alheia. Tem dias que sinto uma vontade imensa de viver assim, de ter todas as dores e angústias resolvidas na missa do domingo, numa confissão mensal com o padre da paróquia. Ter os alvoroços excessivos do corpo tratados com confissões diárias, missas em todas as igrejas das redondezas. Vez em quando penso que seria melhor essa vida: a me divertir pelas calçadas, vendo meus pais virando avós, bisavós, perto de mim e dos meus irmãos. Um jeito de viver bem miúdo. Chego a padecer de achar errado, no lugar de sábio, o vovô ter nascido com a idéia fixa de educar os filhos. Nem um pouco sortudo foi o papai de ter herdado essa mania de querer, através do conhecimento, consertar o mundo, ter mais com o que pensar, cruzar fronteiras. Há dias em que a pergunta não arreda do meu sentimento: ter saído do meu lugar de origem para ser funcionária pública, subordinada burocraticamente a quem eu sou, e não ter um rapaz que me corteje, por algum acaso, é mais acertado do que se eu vivesse no limite das calçadas, a me divertir com o movimento noturno da praça da matriz?

Quinta-feira, Agosto 06, 2009

Das coisas impossíveis

Ouvir Edu Lobo e não me sentir a pessoa mais feliz do mundo.

Quinta-feira, Julho 30, 2009

O que dizem por aí

"...imaginar alguma verdade é nossa tarefa política mais radical. E é preciso cumpri-la, com rasgo e carne, corpo e medula. E osso”.
(Manoel Ricardo de Lima, poeta)

Quarta-feira, Julho 15, 2009

não escrever

parece com quase morrer.

Domingo, Julho 12, 2009

Dos livros que leio


"...pensar em Antonio era viajar na minha imaginação, na verdade eu não queria encontrá-lo, tinha até medo disso, e às vezes antes que cruzássemos na rua eu escapava numa carreira, ainda mais se eu estivesse mal-vestida, descabelada, eu queria mesmo era um eterno monólogo..."
(Dias e Dias, de Ana Miranda)

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Quarta-feira, Maio 27, 2009

Dos livros que leio



"...à medida que os anos avançam, constato a dificuldade de se estabelecer uma comunicação com quem seja. Sob a pressão de tantos saberes, o isolamento é uma tentação e o mutismo uma arma que se volta contra nós. Será possível viver uma solidão esplêndida sem prantos?"
(Coração Andarilho, de Nélida Piñon)

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Quinta-feira, Abril 23, 2009

Ritual

Eu tinha na ponta da língua meu ritual de despedida: ir ao Spetos, ao Habeas Copus, dar um mergulho na Praia do Porto, ir ao Solar do Unhão, comer acarajé no Rio Vermelho, essas coisas. Mas quando fui dar o primeiro passo, descobri não querer nada disso, nem Spetos, mergulho no Porto, nem ir ao Jazz no MAM, nem pensar Cinema no Museu. Eu, de verdade, queria, por um dia - se um dia for pedir muito, por algumas horas -, desconhecer Salvador. Eu queria o encantamento de estranhar o que me é estranho. Sentir, por um milésimo de segundo, o cheiro de Salvador (uma mistura de maresia com acarajé); confundir a Avenida Garibaldi com a Centenário, e nunca saber direito pra que lado da cidade fica a Vasco da Gama. Espantar-me, outra vez, com a cor do mar daqui; e me assustar de beleza ao ver, na decida do Ladeirão, uma ponta da praia de Amaralina. O mar não acaba nunca? Eu queria não saber mais identificar os bairros; achar que o Teatro fica na Praça Castro Alves. “É ali, do outro lado da rua, que tem um bar chamado Quintal”. Também não quero ir ao Quintal. Eu queria, de novo, era olhar, com olhos desmemoriados, cada rua, imaginando quais lugares fariam parte da minha futura vida. “Está morando aqui?”. “Ainda não”, foi o que respondi para uma conhecida no dia do concurso. Eu tinha certeza que viria: descobrir o que esconde a geografia de Salvador, a quem esta cidade seduz ininterruptamente, e de que forma. Antes do resultado do concurso, mamãe disse: “se tu for morar em Salvador...”. “Se eu for não, mãe, eu vou”, interrompi chateada. Ontem eu desdisse: “mãe, eu vou voltar, meados de maio”. Papai me alertou, “vá se despedindo da cidade pra não sentir saudades”. Nem dá, pai, a memória não deixa. Que eu queria me despedir embevecida de não saber Salvador. Mas a memória é boa. Eu queria era ter, mais uma vez, a besta alegria de reconhecer nas linhas de ônibus os bairros cantados nas músicas: Amaralina (“Qual é, baiana?”), Boca do Rio (“Domingo no Parque”), Ribeira (“Domingo no Parque”; “Qual é, baiana?”). A ingenuidade de ir à praia de Itapuã em pleno domingo; a desinformação dos ingredientes do acarajé. Não entender o que é “lá ele”; não estar acostumada à prosódia baiana. (Ouvido acostumou-se; agora, acho mais pra cantiga antiga a melodia baiana.) Saltar do ônibus no Farol, achando estar no Porto da Barra. Passar pelo Largo da Mariquita e não saber ao certo se é o da Mariquita ou o da Dinha. Eu, antes de ir embora, queria desconhecer Salvador até ficar tudo misterioso novamente. Eu queria, de despedida, a sensação de Salvador como pura possibilidade. Só apenas isso, por alguns minutos - se algumas horas for pedir demais.

Segunda-feira, Abril 20, 2009

Anunciação

pra começar
vai acabar, eu vou dizer
vai acabar, vai machucar
vai clarear a cabeça
(nada disso é pra você, de rômulo froes)


Meu projeto soteropolitano de vida pifou. Foi um ano e nove meses de cidade, mas não deu, falhou, vou voltar. Foi certo eu vir; foi bom descobrir que, por exemplo, não é tudo que eu acho normal, que há em mim princípios, humores e crenças cravadas a ferro e fogo. Mas foi doído admitir o não funcionamento do meu plano de vida em nova cidade. Não vou dar nome aos bois, mas sei direito que são daqui e de onde eu vim, os culpados; além de mim. Foi bom vir, o exílio mexe com a gente, da melhor forma - foi assim comigo. Mas exílio muito vira costume, dá amargura, e já nem se estranha mais viver só, ter dificuldade de se misturar a outras pessoas; auto-suficiência vira teorema. Graças que há dentro de mim qualquer coisa que se rebela em ciclos. Passo dias acostumada com o exílio, mas de um a cada dez, ou com mais frequência, acordo de coração engravatado, explodindo de sentimentos desmedidos, e fico num pra-lá-e-pra-cá, pensando e repensando o que fazer, como fazer. No começo era o que fazer, como fazer para realizar o projeto soteropolitano de vida. Depois foi o que fazer para permanecer, sem projeto. Depois foi a aporrinhação da dúvida: insistir ou voltar. E foram noites de insônia. E foram chopps no Spetos. E foram Skol Beats, Devassas, Casais Garcia em casa. E mesas de bar (mesa de bar é quando eu e uma amiga ficamos tomando cerveja e conversando no MSN; eu cá, ela lá). Foram manhãs acordando com o coração na mão, as mãos na cabeça - a arrancar os cabelos - e uns choros compulsivos de não saber – de não saber do que desistir, com quais possibilidades acabar. Era muito assim: de noite eu tomava a decisão; e, de manhã, desdecidia. A aceitação que meu projeto pifou, não deu certo, falhou, não calhou, não deu pé, não deslanchou, não pegou no tranco, nem com afogador, foi, se não a primeira, a segunda mais difícil resolução da minha vida. Foi como aceitar não amar mais quem eu considerava ser o amor da minha vida. Passei dias, meses, com a decisão tomada pela metade, até que, numa manhã qualquer, a caminho do trabalhado, na tranquilidade de exílio acostumado, me veio a imagem de Fortaleza amanhecendo, Fortaleza pela manhã, começando a se movimentar. Arrebatou-me uma sensação de estar lá, de volta. Foi assim que a decisão se inteirou, e, pela primeira vez, não doeu mais admitir que meu projeto soteropolitano de vida não foi como eu quis, não foi como eu pensei, foi como era pra ser: justo.

Sábado, Abril 18, 2009

Dos livros que leio



“Mas se com a idade a gente dá para repetir certas histórias, não é por demência senil, é porque certas histórias não param de acontecer em nós até o fim da vida.”

(Leite Derramado, de Chico Buarque)

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Quarta-feira, Abril 15, 2009

O mundo não está perdido




CD Peixes, Pássaros, Pessoas, de Mariana Aydar.

Quarta-feira, Abril 08, 2009

Hoje eu quero apenas...

Terça-feira, Abril 07, 2009

Dos livros que leio



“Quero rir, chorar, cantar, dançar ou destruir, mas ensaio um gesto, e o braço cai, paralítico. Dir-se-ia que há em mim um processo de resfriamento periférico. Os outros têm pernas e braços para transmitir seus movimentos interiores. Em mim, algo destrói sempre os caminhos, por onde se manifestam as puras e ingênuas emoções do ser, e a agitação que me percorre não encontra meios de evadir-se. Reflui, então, às fontes de onde se irradia e converte-se numa angústia comparável à que nos provém de uma ação frustrada.”

(O Amanuense Belmiro, de Cyro dos Anjos)

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Sexta-feira, Abril 03, 2009

Efeito sexta-feira



Toda sexta-feira eu acordo jurando, de pés juntos, com toda a força naval da minha crença divina, que no fim do dia vou direto do trabalho para casa, jantar saudavelmente, e dar prosseguimento aos meus trabalhos domésticos, ou alugar um filme, ou ler um livro, como se fosse meio de semana. Enquanto eu juro, testo minha vontade contrária me imaginando sentada no Espetos ou indo tomar uma cerveja no botequim copo-sujo do fim da rua em companhia caridosa. Repudio a vontade contrária e reafirmo a história de voltar para casa, jantar e entreter-me com os planos caseiros. Até porque, argumento comigo mesma, eu já sei como é ir ao Espetos: faço mil e um auto-retratos, a solidão cresce com o efeito do álcool, volto para casa, tomo a saideira ouvindo Belchior e me perguntando até quando, e, no dia seguinte, acordo com ressaca moral por não ter evitado a ida ao Espetos - sem precisão o dinheiro e o fígado gastos num arroubo de já enjoada boemia solitária. Sei ainda mais como é ir ao bar do fim da rua: repito-me por falta de assunto e me arrependo de companhia caridosa - penso: melhor mesmo teria sido ir ao Espetos sozinha. Pois são assim minhas manhãs de sexta-feira, essa lavagem cerebral inútil. Que não adianta, por voltas das onze horas, surgem desconhecidas energias que atiçam meus desejos boêmios. Aí ficam as vontades opostas lutando dentro de mim até a vontade inicial morrer às 4 da tarde, e, antes de se enterrar, me empurrar, às 5, direto para o Espetos ou, se a solidão estiver aumentada ao ponto de dor, me fazer telefonar e insistir por caridosa companhia.

Dos livros que leio, releio, treleio


“Naquele dia entrei em sua casa com o propósito de acertar as contas e dar por encerrado aquele curso de merda. Mas antes de partir faria um pronunciamento em língua portuguesa, num português brasileiro e muito chulo, com palavras oxítonas terminadas em ão, e com nomes de árvores indígenas e pratos africanos que a apavorassem, uma linguagem que reduzisse seu húngaro a zero. Deixei de fazê-lo devido ao visível arrependimento de Kriska, que só não me pediu perdão porque inexiste tal palavra em húngaro, ou melhor, existe mas ela se abstém de usá-la, por considerar um galicismo. Como forma coloquial de se expiar uma culpa, existe a expressão magiar végtelenül büntess meg, isto é, castiga-me infinitamente, numa tradução imperfeita. Foi o que ela me disse, sabendo que eu compreenderia não as palavras, mas o sincero sentimento posto nelas. Afagou-me o rosto com a ponta dos dedos, fechou os olhos e sussurrou végtelenül büntess meg, mantendo em seguida os lábios abertos, e no meu entendimento ela pedia para eu lhe beijar a boca.”
(Budapeste, de Zsoze Kósta)

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Quinta-feira, Abril 02, 2009

Ancestralidade

Para a missa de ressurreição da minha avó, alguns parentes escreveram pequenas biografias para homenageá-la. Eu não estive em nenhuma das três missas – incompatibilidade geográfica -, mas recebi quatro biografias por e-mail.

Papai, que tem um olhar crítico para biografias apaixonadas, pediu-me uma análise comparativa. Arrumação dele, mas acabei fazendo, sempre lembrando que toda pessoa, quando se vai, vira - inevitavelmente - mito. Ora pois, jeito não houve. Passionais ou não, a altivez da vovó está muito clara em todas as biografias, até na do papai, que pelejou para pisar devagar. (O papai pensa como eu, há coisas que não precisam ser exageradas - saltam aos olhos.) A enxurrada de características atribuídas à vovó estava, à maneira de cada autor, em todos os textos: personalidade forte, convicção religiosa, caráter inabalável, política ardorosa, católica fervorosa, franca e destemida, altiva e resoluta, determinada e corajosa. Não cabe desmitificação, ela foi, intensamente, tudo isso.

A vovó nasceu numa fazenda no sertão norte do Ceará, onde ainda hoje é um fim de mundo, além de ter sido um dos principais cenários da minha infância. Foi professora, casou-se com um amável (e estressado) agrimensor e teve sete “jóias preciosas”, como ela se referia aos filhos. E daí vieram 19 netos, de onde vieram quatro bisnetos, o último nascido no dia de sua morte, e que vem a ser meu primeiro sobrinho (ôge bu-bu-bu). Mas voltando. A convicção da vovó para com seus princípios e valores era assustadora. Até os últimos dias, por exemplo, ela debulhava um rosário, convicta de que naquela reza ininterrupta estava sua remissão para qualquer pecado que desconfiava ter cometido. Nas visitas diárias do papai à casa dela, ele lhe fazia mil e uma perguntas na tentativa de despertá-la do mundo no qual estava mergulhada. Vovó não dava a mínima, fazia um olhar como que dando desimportância ao papai, baixava a cabeça e não perdia, jamais, o fio do rosário - a convicção última, que nem a idade, nem a memória nebulosa, nem o corpo parado numa cadeira, nem a perda da força de expressão comprometida por um derrame conseguiram abrandar.

Em tudo, a vovó botava essa convicção e, inegavelmente, fez da vida dela um acontecimento. Coisa que, para além do orgulho que sinto, dá-me, ambiguamente, uma sensação de miudeza. Hoje ainda não tenho uma faísca de saber por onde começar a fazer da minha própria vida um acontecimento que se preze. E custa-me desconsolo não ter herdado da vovó nem um terço dessa assustadora convicção. Para completar, um primo, numa das biografias - a única escrita por um neto -, nos jogou o peso nas costas: “somos parte de um projeto de vida que deu certo efetivamente”. Resta-nos, então, não sermos esmagados antes de extrair dessa ancestralidade o mínimo de força vital. Eis a nossa cruz.

Segunda-feira, Março 30, 2009

Dos livros que leio


"O mais pesado fardo nos esmaga, nos faz dobrar sob ele, nos esmaga contra o chão. Na poesia amorosa de todos os séculos, porém, a mulher deseja receber o peso do corpo masculino. O fardo mais pesado é, portanto, ao mesmo tempo a imagem da mais intensa realização vital. Quanto mais pesado o fardo, mais próxima da terra está nossa vida, e mais ela é real e verdadeira.

Por outro lado, a ausência total de fardo faz com que o ser humano se torne mais leve do que o ar, com que ele voe, se distancie da terra, do ser terrestre, faz com que ele se torne semi-real, que seus movimentos sejam tão livres quanto insignificantes."

(A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera)

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Terça-feira, Março 24, 2009

Hoje eu quero apenas...

Segunda-feira, Março 23, 2009

Ciclo

Agora eu sou, além de tudo, tia.

Por força*

"Morrer, só se morre só. O moribundo se isola numa redoma de vidro, ele e a sua agonia. Nada ajuda nem acompanha." (Rachel de Queiroz)

Sábado a vovó morreu. Dias antes, já no hospital, ela agarrou minha mão e fitou-me os olhos. Nunca vou saber se ela recordava eu ser eu. Quando abria os olhos e reagia aos apelos por um aperto de mão, vovó estava visivelmente em outro tempo, num mundo só dela. Quando a gente pensava que ela não mais conseguiria se manter viva, ela melhorava. Quando ela melhorava, piorava ainda pior em seguida. E foi-se indo, aos poucos, a segunda personagem das manhãs semanais da minha infância, quando, depois do colégio, eu ia para a casa dela, tocava a campainha avexada, abraçava o vovô - que morreu há três anos - e corria para a cozinha. Quando não era por tijolinho de leite, era por doce de leite que eu a perturbava. Era como a vovó se aproximava de mim, já que nunca foi de paparicos com os netos, nem com os filhos. Ela era sempre sóbria - até no nome: Maria Menezes -, orgulhosa, quase inatingível, um exemplo de como sempre viver por cima da carne seca.

* “Por força” é uma das expressões que a vovó mais usava e, de tanto eu falar, alguns dos meus amigos adotaram.

Quinta-feira, Março 12, 2009

Dos blogs que leio

Continuo achando que a literatura deve ter como referência a reflexão crítica. Que não interessa às massas, ávidas que são por novas massagens egóicas produzidas pelo leque apaziguador dos consensos. Pode vender milhões, pode encher o bolso dessa gente de dinheiro... mas não será literatura, porque literatura não é o que vende. É o que, como coloca o José Castello em seu texto da semana passada, fura nossas seguranças e, num rasgão, expõe a fogueira na qual ardemos.

"No esforço inútil de "ser igual", ilusão nefasta das identidades", o neurótico das massas pula de best-seller em best-seller. Atrás de si mesmo, em busca de suas próprias certezas inúteis. Como lembra bem o Magno, tudo aquilo que todo mundo já entendeu muito bem acaba caindo na mediocridade (Estética..., p. 34). E é por isso que vivemos num mundo medíocre. A "arte-mercadoria" (com o perdão do contrasenso) não corrompe, não inunda, não decompõe nada. Apenas ressoa, como os passos em marcha do exército de clones da eterna e irresponsável juventude. Sentido!! Ordinário, leia!!

(Impostura, de Marcelo Henrique Marques de Souza)

*

E faz sentido, a essa altura, lutar contra a força do mercado? Acho que sim: o mercado, como o famoso escorpião da anedota, acaba de mostrar ao mundo a que veio. É possível que, amanhã, a tecnologia mude de tal forma os paradigmas, que livros e livrarias se tornem obsoletos. Até lá, porém, muitos petabytes ainda vão correr pela internet. Por enquanto, as livrarias, assim como a floresta amazônica ou o mico leão dourado, merecem os nossos melhores cuidados e carinhos.
(internETC, de Cora Rónai)

*

Livros, como filmes, não são apenas produtos comerciais, nem mercadorias comuns: são elementos com valor simbólico, estratégicos na afirmação de nossa identidade cultural e na formação da consciência crítica da sociedade. Exigem, portanto, políticas públicas enfáticas, em duas frentes: fomento e regulação. É preciso estimular o desenvolvimento da indústria editorial, levando a maiores tiragens e formação de uma base crescente de leitores, fomentando a demanda por bons livros, o que será bom para todos. Mas também é preciso cuidar para que haja diversidade na produção editorial, evitando que as livrarias se transformem em supermercados de best-sellers, enquanto relevantes ensaios e obras de ficção mais séria ficam confinados a uma existência quase confidencial.
(máquina de escrever, de Luciano Trigo)

Segunda-feira, Março 09, 2009

Na livraria

Depois de ter procurado e não encontrado o livro que eu queria, fui atrás de uma esperança no estoque.

Eu: Moça, boa tarde, será que você poderia ver se tem um livro chamado "O Livro do Desassossego"?

E a moça vendedora da maior livraria desta cidade digitou no computador:

O LIVRO DO DESASUCEGO.

Eu: Não, moça...

Ai.

Não tinha mesmo o livro, e fui atrás de outro, que também não encontrei e fui ver com a vendedora - dessa vez era outra - se o estoque ia me acudir:

Eu: Moça, boa tarde, será que você poderia ver se tem um livro chamado "Persuasão"?

E a moça digitou no computador:

PERSOAZÃO.

Eu: Não, moça...

Ai.

Também não tinha. Nenhum dos dois, mesmo escritos corretamente.

Eu não queria, mas às vezes dá vontade de viver só de comércio eletrônico.

Sábado, Fevereiro 28, 2009

Alegria pós-carnavalesca

Dos livros que leio



“O que me oprime numa viagem é a identificação do que vou sentir. Encanto, euforia, tristeza? Tudo ao mesmo tempo. Contemplo um território desconhecido, mas o meu corpo é o mesmo, e ele mantém a referência de uma paisagem interna, que prevalece; é tão absoluta que não posso olhar nada sem comparar com essa memória residual. Durante as duas viagens, sentia-me uma escultura fora de seu museu de origem, em exposição itinerante por outras galerias, deslocado, sem foco.”
(Galiléia, de Ronaldo Correia de Brito)

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Quinta-feira, Fevereiro 05, 2009

Graças

Uma amiga me convidou para eu fazer uma espécie de coluna radiofônica com dicas literárias, numa rádio aqui da cidade. Eu disse que faria, mas deixei o assunto morrer. Tenho consciência da minha incapacidade de resenhar qualquer coisa. Além de eu não ser essas jornalistas toda – levando em consideração que jornalista toda tem a obrigação de saber fazer resenha –, meu raciocínio é qualquer coisa, menos ordenado, o que me impede de escrever dica literária de respeito. Além disso, os livros me pegam de forma tão profunda, que eu não consigo me desvencilhar da história, o que não é justo para com os demais-futuros leitores que se deixarem levar por minhas dicas.

Acontece que eu tenho vontade de escrever sobre os livros que leio. (“Não gosto de me esquecer de coisa nenhuma. Esquecer, para mim, é quase igual a perder dinheiro”. Essa é uma fala do Riobaldo, que uma amiga disse parecer com a “filosofia” deste blog.) Mas como eu ia dizendo, ontem acabei de ler “O Filho Eterno”, de Cristóvão Tezza, e, por isso, estava às voltas com uma tentativa de resenha (sim, porque crítica literária é piada diante dos meus conhecimentos literários). Uma observação aqui e ali – cheia dos meus afetos para com a leitura – nada além. Que seja assim, despretenciosamente, sobre “O Filho Eterno”, que comecei a ler numa noite qualquer de insônia, e, num único arroubo, li até não agüentar mais. Interrompi a leitura naquela noite não por causa de sono, nem por o livro ser ruim, ao contrário, como disse Marcelo Coelho (Folha de São Paulo, 12/11/2008), (O Filho Eterno) “é tão bom, tão maduro e verdadeiro que estremeço e não consigo prosseguir". Marcelo interrompeu a leitura de “O Filho Eterno” seguidas vezes por volta da página 40. Eu insisti, e fui até o fim, com entusiasmo, coisa que não me acontecia há algum tempo em relação a um novo autor; um entusiasmo de me deixar nervosa pela boa literatura, de me despertar paixão pelo pai – personagem que, na vida real, é Cristóvão Tezza, autor do romance-autobiográfico-declarado.

“O Filho Eterno” foi ovacionado, premiado aqui e além-mar, e, pelo alarde, eu ia deixá-lo de lado, até que um resquício da minha curiosidade infantil me fez comprar e lê-lo meses depois da compra. Todo mundo já deve saber do que trata o romance, mas não custa dizer que “O Filho Eterno” conta a história de um pai e seu filho, Felipe, que tem Síndrome de Down. Cristóvão Tezza, de quem eu, na minha ignorância literária, nunca ouvira falar antes de outubro de 2007, diz, no romance, que é um escritor de livros que ninguém lê (pena eu não estar com meu livro agora para colocar a citação). Pois eu queria, Sr. Tezza, que você soubesse que (até) eu li “O Filho Eterno”. Não só isso, eu amei aquele pai, aquele filho, a relação deles, a ternura, o afeto, tanto, que li a última página aos soluços. (Inclusive por eu ter de me separar dos personagens, com o fim da leitura.) E para quem está pensando que “O Filho Eterno” é piegas ou coisa do tipo, eu digo, com conhecimento de causa (de repente eu ganhei respaldo literário), que não é. Cristóvão Tezza não é piegas, nem tenta convencer ninguém de nada, absolutamente nada. Quando eu terminei de ler o romance, fui até a varanda, respirei fundo e lembrei de algo que Adélia Prado disse numa palestra sobre o poder humanizador da poesia/literatura/arte, num programa da TV Câmara (Sempre um Papo, de 6/8/2008). Adélia conta que quando a gente vive uma experiência de natureza poética, a gente pode dar graças e dizer “ah, então tá, então dá pra eu viver mais”. Então tá.

Terça-feira, Janeiro 27, 2009

Só mais uma coisa



Tudo agora vira comunidade virtual de relacionamento. Não sei se é bom ou se é ruim, é só mais uma coisa. A mais nova comunidade virtual descoberta por mim se chama Skoob. O Skoob é uma comunidade virtual onde a pessoa cadastra os livros que já leu, vai ler, quer ler, abandonou e está relendo. Também dá para cadastrar livros desejados, trocáveis e emprestados. No "quem somos" do site, o pessoal diz que o Skoob pretende ser a resposta à pergunta "Para onde todas as pessoas boas foram?". Bom, eu não acho que o site sirva de resposta (é muita petulância!), nem acho que quem lê livros seja necessariamente uma pessoa boa, mas, é certo, tem maiores chances. Bom mesmo nessa vida seria poder, ao final de um dia qualquer, ir a qualquer livraria de qualquer cidade em qualquer bairro e encontrar pessoas boas com as quais pudéssemos trocar idéias, livros, experiências, sentimentos e tudo o quanto existe no mundo. Não sendo assim, resta-nos, talvez, ou não, perambular pelo Skoob, saber quem anda lendo os mesmos livros que a gente, o que andam comentando dos livros que andam lendo, e por aí. Quando eu me cadastrei no Skoob, convidei algumas pessoas para aderirem à comunidade, mas ninguém aderiu. Acho que ninguém mais bota fé nessas comunidades virtuais. Mas o Skoob pode ser bem usado. Inclusive, pode-se escrever resenhas sobre o livro, classificar e ainda botar trechos do livro, como se fosse um fichamento, para deleite próprio e dos outros. O Skoob serve também para a gente saber que os livros mais lidos pela população brasileira que freqüenta comunidades virtuais são a coleção do Harry Potter e O Código da Vinci. E eu descobri que muitos dos livros que eu li ninguém leu.

Quarta-feira, Janeiro 21, 2009

Minha vida 2009

Já é vinte e um e eu preciso dizer que na minha noite de ano-bom, eu fiz quase o planejado. Não teve dança indígena, mas sete incensos queimados. Uma garrafa de vinho derrubada; três cervejas e meio quilo de camarão também. Ainda preciso dizer que os últimos suspiros de 2008 foram os suspiros mais solitários de todos os tempos. Nunca falei tão pouco, nunca convivi tão pouco com seres humanos, nem com qualquer outro tipo de ser animado. Cheguei a me sentir apta a viver nas cavernas da Chapada dos Veadeiros. Mas isso é coisa do ano que passou. Neste ano, o planejado era terminar de ler "A Insustentável Leveza do Ser", coisa que aconteceu. É um livro bom. O chato é que decidi, pro resto da minha vida, jamais amar - romanticamente falando - a ninguém. O que, na verdade, já era um propósito involuntário. Tornou-se voluntário, até que se prove, involuntariamente, o contrário. Outro planejamento era ler "Memorial do Convento", do Saramago. (Em vida semi-cavernosa como a minha, ler um livro é um evento; é, bem dizer, a razão diária de viver.) Comecei o ano me desplanejando e, no lugar, li um livro que andava esquecido na estante: "Cartas na Mesa", do Fernando Sabino, que, aliás, apareceu para provar que Deus 2009 é bom comigo. E digo: se eu tivesse nascido no dia 12 de outubro de 1923, em Belo Horizonte, eu teria nascido menino e meu nome seria Fernando Tavares Sabino. Acontece que eu nasci em 1982, em Sobral, e menina, 51 centímetros. O que não impede, porém, de eu e o Fernando sermos as criaturas mais parecidas do mundo. Vivi bons dias com ele, fomos até tomar chopp e comer espeto de frango com provolone. Fernando foi, por uma semana e meia, meu amigo mais animado, no sentido oposto de inanimado. Mas 2009 anda emperrado, entalado na garganta, talvez seja culpa de um certo trabalho com o qual ando às voltas. Só algumas coisas miúdas estão boas. E voltar da caminhada noturna ouvindo “Na Carreira” tem sido a maior das diversões. No mais, são noites de insônias. Quando não de insônia, mal-dormida é a noite. Acordam-me diversas vezes durante o sono os sonhos mais amalucados do mundo. E eu ofereço um pote de doce de caju ao metido a psicanalista que decifrar o sonho em que nasceu um neném que era a reencarnação da Lia de Itamaracá. Através das cordas vocais vistas na ultra-sonografia-mega-power-supercomputadorizada do meu sonho, os médicos afirmavam, com a certeza de dois mais dois ser quatro, que a criança era a reencarnação da Lia. O neném cresceu, ainda no sonho, e o mundo todo comprovou o que os médicos já sabiam. Aviso ao psicanalista que não uso drogas, nem sou imaginativa. Mas, levando em consideração outros muitos sonhos amalucados do mesmo naipe desse, sugiro prognóstico: uma espécie crônica de reencarnação-sonífera de Salvador Dalí. Ando até com medo de dormir, mas se algum produtor cinematográfico de ficção científica quiser, estou disposta a voltar a dormir. Enquanto isso, vou continuar curtindo a insônia procurando versos safadinhos da música brasileira que passam despercebidos como, por exemplo, “quem vibrou nas minhas mãos/não vai me largar assim”, da música De Volta ao Samba, do Chico de Hollanda.

Quinta-feira, Dezembro 18, 2008

Preparando o ritual de ano novo

Eu sei que disse ter deixado as músicas um pouco de lado este ano, mas não. Devo ser exagerada. É que eu queria ser musicista, viver de música. Não sendo - nem serei - tenho uma tendência natural a achar que estou musicalmente relapsa. Mas percebi que nem tanto, quando conversava com uma amiga. Falávamos do que fazer na chegada do novo ano. “Vou comprar uma penca de cervejas, bebê-las todas, dormir cedo e acordar só no ano seguinte”, eu disse. A amiga veio com idéias muito mais originais e pra lá de interessantes, que estou pensando em adotá-las, se não completamente; parcialmente, pelo menos. A idéia primeira é fazer a trilha sonora de 2008 e passar as últimas horas do velho ano numa revivência através das músicas. A segunda idéia é bem mais original, mas talvez me falte paciência para ficar sóbria até a virada do ano. Seria, na última hora do ano, acender incensos, velas, entoar uns mantras, fazer umas orações para os santos, para Buda e todos os Orixás, e depois praticar algumas danças indígenas pedindo venturas e aventuras em 2009. Fico tranqüila que ninguém vai estar presente para ver a minha dança indígena. Então, vou me arsenar com velas, incensos e chocalhos. Mas, caso me atormente qualquer indisposição para tanto, garantirei as cervejas. De uma forma ou de outra, eu hei de ter um ritual de virada de ano.

*

A esta altura, a primeira idéia já está quase toda preparada. Foi complicado, mas consegui fazer uma lista das trinta músicas do meu ano. O critério variou: ou foi por eu ter ouvido muito ou por eu ter conhecido ou por ter marcado algum momento ou porque sim. A ordem é de acordo com a cronologia da minha memória. E se clicar nelas, pode-se ouvir ou a música inteira ou 30 segundos da música ou um vídeo no youtube ou nada.

Trilha Sonora de 2008

Janeiros (Pedro Luís e Roberta Sá)

Laranjeira (Roque Ferreira)

Tudo outra vez (Belchior)

Encontro (Chico Pinheiro)

Cry Baby (Janis Joplin)

Nada será como antes (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos)

Caça e caçador (Cláudio Rabello)

Ilha de Maré (Waldir Lima e Lupa)

Biscate (Chico Buarque)

Canudos (Edu Lobo e Cacaso)

Minha Sereia (Edu Lobo e Joyce)

Mudança dos Ventos (Ivan Lins e Vitor Martins)

Meia-lua inteira (Carlinhos Brown)

A história de Lily Brown (Edu Lobo e Chico Buarque)

Deixa Sangrar (Caetano Veloso)

Mal necessário (Mauro Kwitko)

Mente, mente (Robinson Borba)

Coragem, coração (Carlos Rennó e Cláudio Manjope)

Domingo no Parque (Gilberto Gil)

Nuvem de lágrima (Paulinho Resende e Paulo Debétio)

O que é o amor? (Arlindo Cruz, Fred Camacho, Maurição)

Trajetória (Arlindo Cruz, Franco, Serginho Meriti)

Chega (Mart'nália e Mombaça)

Entretanto (Paulinho Moska)

Como dois animais (Alceu Valença)

Certidão (João Cavalcanti e João Fernando)

Dilemas do Universo (Gabriel Azevedo)

Elephant Gun (Banda Beirut)

Três (Antônio Cícero e Marina Lima)

Coração Noturno (Edu Lobo e Cacaso)

Terça-feira, Dezembro 16, 2008

Confissão

Pois, para mim, não fedeu, nem cheirou. O amigo riu quando eu disse isso. Achava ele que eu ia dizer algo, digamos, mais consistente a respeito de 2008. Mas não. 2008 foi só isso: não fedeu, nem cheirou. Amizades, algumas eu fiz, mas só em 2009 vou sabê-las verdadeiras. Quanto aos velhos amigos, tudo vai bem. Apesar da distância, são com eles que eu vou, com a licença de Pedro Caetano, sambar até cair no chão.
Os livros não me bastaram aos domingos, as angústias me aperrearam como nunca. Alguns - domingos e livros - foram bons. Outros – livros - foram lidos sem gosto. Ando com uma atual incapacidade de abandoná-los pela metade.
Até as músicas: sinto que as deixei um pouco de lado, apesar de ter ido a bons shows, e ao show mais esperado de todos os meus tempos musicais: o do Edu Lobo. Se hoje me perguntares para o show de quem eu mais quero ir: do Edu Lobo, ora, de novo, de novo, de novo.
A boemia foi maltratada, eu diria. Uma boemia sem sentido. Das mesas do ano inteiro, que, aliás, foram muitas, apenas algumas foram da boa boemia, com conversa boa e ressacas prazerosas. De resto, crises existenciais diante do constante desencontro de pares. Faço-me entender quando digo isso? Pois é que passei a maior parte do ano a procurar um par. Não um par amoroso, não diria isso tão publicamente. Passei a maior parte do ano procurando um par. Simplesmente. Um par para meus questionamentos mundano-existenciais, um par para as coisas que me alegram, um par para meus gostos musicais, para meus gostos dominicais, para o cinema, para meus devaneios litero-alcóolicos, para as coisas que dão sentido, na minha opinião, à vida. É certo que tenho pares, mas preciso de mais. Não dou conta de mim, nem os outros. Meus poucos pares continuaram os do ano anterior. Os possíveis novos pares não se tornaram pares, por mais que eu insistisse, por mais que insistissem. Não há insistência no mundo que una díspares.
Houve sambas, houve coisas que há muito eu queria, houve confirmações de supersentimentos, houve brigas, houve fazer as pazes, houve você é um covarde e eu tenho sangue no olho, pedidos de desculpa, houve se fazer de doida (muito!), faz de conta que nada aconteceu também houve. Amores, nenhum. Nada que abalasse. Aliás, minto. Um quis abalar, mas foi curto demais, e era engano, era só uma carência travestida de crença de que aquele moço poderia vir a ser um amor, mesmo que passageiro. Não poderia. Aliás, acho até que ninguém é capaz de ser um amor para mim. Sou um bicho sem jeito, sem modos, uma chita fugitiva.
Comecei e terminei o ano, para bem dizer, do mesmo jeito: funcionária pública, nada-baiana, nenhum plano B começado, nenhuma atividade paralela para além da burocracia. Sequer me matriculei na natação. Eu digo que 2008 foi um daqueles anos que servem para se saber por onde as coisas vão se encaminhar, mesmo esse saber sendo algo inatingível.
Foi um ano de espera. De maturação. Eu fui como uma fruta no pé. Não fossem alguns oásis como o Amanuense Belmiro, o Ensaio sobre a Cegueira – o filme, alguns shows musicais, algumas conversas, o show do Edu Lobo, as pazes com a irmã e as verdadeiras amizades, estava eu a murchar, no pé. Senti-me, boa parte dos meses, incapaz de sentir a integridade das alegrias, a integridade das músicas, das palavras. Ainda me sinto em busca de arrebatamentos, mas capaz de reconhecer que sou bem dotada de poucos, mas bons e verdadeiros afetos. Suportei 2008 graças às minhas pequenas verdades.
Para 2009, eu muito planejo. Mas estou fazendo de conta que não. De verdade, quero apenas duas coisas, que não ouso dizer o que são. Nem conto de como vou conseguí-las. Se virei a falar aqui de alguma coisa, vai ser dos planos que tenho, mas que estou a me fazer que não os tenho. Mas 2009 está longe. Este dezembro rasteja. Posto que hoje é 16 e eu jurava ainda ser 19.

Quarta-feira, Dezembro 10, 2008

Diálogo

Duas criaturas na livraria procurando livros para dar de presente no amigo secreto. Uma delas lê o título de um dos livros:


Carlota Joaquina.

Ah, daquela novela da Globo, né?

É.

E hoje vai começar a série daquela menina...

Que menina?

Aquela menina...

A Maysa?

Não.

Quem é Maysa mesmo, hein?

É aquela apresentadora do SBT.

Ah. E essa série, de que menina é?

Ai, eu esqueci o nome...

Não é Maysa mesmo não, o nome? Eu ouvi falar que vai ter uma série sobre uma tal de Maysa, na Globo.

É? Eu não sei quem é não. A única Maysa que eu conheço é a apresentadora do SBT.

Pois vai ter, mas eu também não sei quem é essa Maysa não.

Ah, lembrei o nome da menina da série que começa hoje! É Capitu.

Sexta-feira, Novembro 28, 2008

A melhor notícia musical dos últimos 26 anos

Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura apresenta Edu Lobo

O cantor, compositor e instrumentista Edu Lobo realiza show em Fortaleza, na próxima quinta-feira, 04 de dezembro de 2008, no Anfiteatro do Dragão do Mar, às 20h

Edu Lobo é um premiado músico carioca, de habilidades múltiplas. Compositor, instrumentista, arranjador e cantor, iniciou a carreira nos anos 60 em intenso contato com a bossa nova. Desde então, teve parceiros musicais ilustres como Vinícius de Moraes e Chico Buarque, além de grandes intérpretes da MPB. Trabalhou com composições socialmente engajadas e, mais tarde, com arranjos para espetáculos teatrais, trilhas sonoras para programas de TV e filmes.

No repertório de Fortaleza, Edu apresenta canções como Corrida de Jangada, No Cordão da Saideira, Angú de Caroço, Choro Bandido, A Bela e a Fera, Beatriz e Ciranda da Bailarina.

Serviço: Edu Lobo, dia 04 de dezembro de 2008, quinta, às 20h, no Anfiteatro.

Terça-feira, Novembro 25, 2008

Anotações de um dia chuvoso

Eu sei que o mundo está assim, sem sentido, por falta de rituais. Mas sou contra rituais que obrigam a gente a abrir caixas de onde pode sair uma barata voadora, ou duas. Hoje fiquei com medo de sair até rato de dentro das caixas de onde estavam tirando uma árvore de Natal de mentira para montar no trabalho. Eu sou a favor de rituais mais naturais, que pareçam mais manias, manias boas, que a gente até se obriga a tê-las, como, por exemplo, almoçar kalzone sabor quatro queijos em dias chuvosos.

*

Eu às vezes gosto de trabalhar muito. Quando eu trabalho muito chego até a acreditar que sou capaz de trabalhar, trabalhar mesmo, ser uma trabalhadora, mão-de-obra remunerada. Sofro de um pensamento constante de que meu trabalho é uma coisa passageira; tenho sempre a sensação de que alguém vai me descobrir e me patrocinar para eu ficar só conversando com a pessoa, achando graça, batendo palmas, saindo pela cidade arrastando minhas sandálias e me curando de ressacas fenomenais, depois de sambas fenomenais.

*

Uma conhecida da minha família era uma mulher culta que, quando mais velha, começou a se esquecer das coisas. Foi aí que ela lembrou de ter um caderno de anotações para não mais cometer os erros do passado. Um dia encontraram o caderno dela e leram:

“Isolda, não corta mais o cabelo com o Fulano, que ele te péla.”
“Isolda, não vai mais ao cinema na sessão das 2, que tu dorme o filme todinho.”

Desde quando ouvi essa história, eu criei meu próprio caderno de anotações, mas ele fica só na minha cabeça, por enquanto. Faço que nem dona Isolda, me chamo e digo o que eu tenho de lembrar. Funciona que só.

Quarta-feira, Novembro 19, 2008

Conclusão

Eu não posso mais cantar "À palo seco", assim, com a força da idade.

Terça-feira, Novembro 11, 2008

Difícil, né não?

Eu estava louca esperando a divulgação da Agenda Cultural de novembro de 2008. Queria encontrar um grupo de pessoas que moram na mesma cidade que eu e que, de repente, se juntam para falar de coisas que me interessam. A Agenda só chegou hoje, dia 11, em minhas mãos. Com olhos ávidos por novidades, fui lendo os eventos, cursos, palestras, encontros, quando eu li: "Café Científico". "Achei!", pensei. Levantei o rosto, olhei ao meu redor, e baixei a vista para ler o que era o tal do Café Científico. E li: "Palestra sobre o comportamento dos insetos". Fechei a Agenda, me levantei e fui escovar meus dentes.

Quarta-feira, Novembro 05, 2008

Associação

Um idoso da empresa foi homenageado. Recebeu um prêmio chamado "de homenagem ao cidadão/idoso" (desse jeito mesmo: cidadão barra idoso). O prêmio faz parte de uma coisa maior, um projeto chamado "memórias - resgate de uma história de vida". Talvez por eu não ser exatamente uma idosa (só tenho uma alma velha - tão velha que às vezes volta a ser criança – e umas manias envelhecidas), eu discordo dessa coisa de "resgate de uma história de vida". Quando eu estiver velha velha mesmo, eu não quero ter de resgatar minha história de vida, eu quero que minha história de vida simplesmente continue indo, indo, indo, acontecendo, do jeito de agora, só que com a maior parte dela já acontecida. Mas, além disso, esses grupos de idosos, de mulheres, esses agrupamentos em geral me incomodam um pouco, mas eu entendo. Eu mesma queria fazer parte de um grupo, um clube, uma associação de leitores livres, com a participação de pessoas velhas, novas, corocas, homens, mulheres, gays, magros, gordos, malresolvidos, bem-resolvidos, mal-amados, bem-amados, angustiados, alegres e desassossegados. Quem vai querer?

Sexta-feira, Outubro 31, 2008

Dessa irmandade eu saio

Típico de ser humano é a necessidade que sentimos de encontrar um par neste mundo, um par com quem a gente se identifique nas nossas graças, e desgraças também. Alguns gordos, por exemplo, adoram chamar outras pessoas, sutilmente, de gordas, gordinhas ou gordonas, até vaca, se possível. Alegram-se quando alguém engorda. Eu não sou desse naipe, mas sou vítima deles. Um dos casos: tem um senhor gordo e feio que sempre quando fala de coisas relacionadas a pessoas gordas, me leva para a irmandade: “eu e a Cris, por exemplo, não podemos nos dar ao luxo de comer chocolate todos os dias”. Um dia desses, eu estava quieta no meu canto quando percebi que, numa sala ao lado, através do vidro, o dito cujo me fazia um sinal esfuziante para eu ir até lá falar com ele. Gentil como eu consigo ser às vezes e sorridente-abestalhada, fui, saltitante, pensando que ele me contaria um fofoca que me fizesse rir ou que ele me perguntaria uma informação que só eu saberia responder, mas não: o gordo-feio meteu a mão no bolso-sacolão e arrancou de dentro um remédio, uma caixa vazia de um remédio que prometia emagrecimento imediato. Eu sorri e disse que não me interessava, que essas coisas de remédio não fazem parte da minha vida, e saí, desolada. Faz mais de mês essa história e ele continua da mesma largura. Ele vai mais longe. Durante uma caminhada-cooper ele levou uma topada no calçadão da orla marítima, caiu, quebrou o braço e veio me alertar: “cuidado, Cris, você, que também anda na orla... Nós, com o nosso peso, quando caímos de mal jeito, nos ferramos”. Eu sorri inacreditando que ele me botava no mesmo patamar de peso dele, coisa que eu sei que não porque uso lentes de contato e ainda perguntei para um povo se eu estou gorda como ele e disseram que eu não. Mas é sempre assim, qualquer oportunidade que ele tem de me carregar para a associação dos gordos, ele me carrega. Mal ele sabe, porém, que vai perder um membro dessa irmandade. Entojei-me, com todas as forças navais de mim, estar gorda ou gordinha, como queiram. Cheguei a quase entrar em colapso mental ao tomar a decisão de emagrecer – afinal, ficar gorda tem lá suas vantagens, é o melhor dos meios de autoboicote - e eu falo isso, de me livrar de qualquer indício que dê chance a esse tipo de gordo-algoz me levar para a irmandade com a mesma certeza de quando eu esbarrei com uma semiconhecida no dia da prova do concurso que me trouxe para viver na cidade onde eu hoje vivo. Foi o seguinte o diálogo entre mim e a semiconhecida:

Ela: Eu te conheço de algum lugar.
Eu: Conhece sim.
Ela: Mas não é daqui não, né?
Eu: Não, é de Fortaleza mesmo.
Ela: Ah é. Está morando aqui?
Eu: Ainda não.

Fui petulante, e tirei o primeiro lugar no concurso; ela, o último. Outro dia esbarrei novamente com a criatura e ouvi: “bem que você disse que passaria no concurso”. Pois é. Mas voltando aos gordos de quem eu sou vítima. Estava eu no elevador, olhando pro chão, pedindo a Deus para chegar logo onde eu tinha de chegar quando uma senhora - nova-gorda, recém-ingressa na irmandade - entrou no elevador, no meio da minha viagem, e resolveu travar um diálogo desagradável no meio do elevador lotado:

Ela: Que bonito o seu vestido, onde você comprou? Desculpa perguntar.
Eu: Ou foi na Marisa ou foi na Renner ou foi na Riachuelo, eu não lembro.
Ela: Agora que eu estou gordinha, eu estou doida por uns vestidinhos assim.

Deixa estar.

Quinta-feira, Outubro 30, 2008

Sem encompridar conversa

- Essa alma quer reza.
- Pois eu sou toda altar.

Quarta-feira, Outubro 29, 2008

Sobre campeonato e outras coisas

Quando eu descobri a Copa de Literatura Brasileira, eu achei bom encontrar um monte de gente, pelo menos 17 pessoas, falando sobre os mesmos livros. A Copa de Literatura é um campeonato, semelhante ao campeonato de futebol, eu nem precisava dizer. Mas à literatura não se dá o mesmo tratamento como ao futebol, certo, mas é legal mesmo assim. É assim que funciona: uma pessoa lê dois livros e diz quem ganhou o jogo, ou melhor, qual dos dois livros mais lhe agradou. Tem as oitavas de finais, as quartas de finais, as semifinais e a final. Na final, os jurados de todos os outros jogos mais um escolhem qual dos dois livros que chegaram à final merece ganhar o título de vencedor da Copa. As escolhas são subjetivas, um livro nunca é o mesmo para duas pessoas. Os livros lidos na Copa de Literatura são de escritores contemporâneos, o que faz a gente acabar descobrindo e conhecendo o povo que anda a escrever por aí. O livro vencedor da primeira edição da Copa (que está, atualmente, na segunda edição) foi o "Música Perdida", de Luiz Antônio de Assis Brasil. Que eu não me aguentei de curiosidade, comprei e li, gostei mais do meio pro final e do gran finale. Vontade que eu tive foi de, assim que terminei, voltar pro começo e relê-lo, mas achei de melhor agrado presentear alguém, que inventou de fazer aniversário exatamente no dia seguinte ao que eu terminei de ler o livro e que eu acho que vai gostar, e ainda vou aproveitar para fazer uma boa ação no dia nacional do livro: passar um livro adiante.

Das coisas que me fazem rir de manhã cedo

Fosse eu o Bentinho
Deixava de charminho
E chamava o Escobar
Para um ménage-à-trois.
(Biajoni)