Quarta-feira, Julho 15, 2009
Domingo, Julho 12, 2009
Dos livros que leio

"...pensar em Antonio era viajar na minha imaginação, na verdade eu não queria encontrá-lo, tinha até medo disso, e às vezes antes que cruzássemos na rua eu escapava numa carreira, ainda mais se eu estivesse mal-vestida, descabelada, eu queria mesmo era um eterno monólogo..."
(Dias e Dias, de Ana Miranda)
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Quarta-feira, Maio 27, 2009
Dos livros que leio

"...à medida que os anos avançam, constato a dificuldade de se estabelecer uma comunicação com quem seja. Sob a pressão de tantos saberes, o isolamento é uma tentação e o mutismo uma arma que se volta contra nós. Será possível viver uma solidão esplêndida sem prantos?"
(Coração Andarilho, de Nélida Piñon)
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Quinta-feira, Abril 23, 2009
Ritual
Eu tinha na ponta da língua meu ritual de despedida: ir ao Spetos, ao Habeas Copus, dar um mergulho na Praia do Porto, ir ao Solar do Unhão, comer acarajé no Rio Vermelho, essas coisas. Mas quando fui dar o primeiro passo, descobri não querer nada disso, nem Spetos, mergulho no Porto, nem ir ao Jazz no MAM, nem pensar Cinema no Museu. Eu, de verdade, queria, por um dia - se um dia for pedir muito, por algumas horas -, desconhecer Salvador. Eu queria o encantamento de estranhar o que me é estranho. Sentir, por um milésimo de segundo, o cheiro de Salvador (uma mistura de maresia com acarajé); confundir a Avenida Garibaldi com a Centenário, e nunca saber direito pra que lado da cidade fica a Vasco da Gama. Espantar-me, outra vez, com a cor do mar daqui; e me assustar de beleza ao ver, na decida do Ladeirão, uma ponta da praia de Amaralina. O mar não acaba nunca? Eu queria não saber mais identificar os bairros; achar que o Teatro fica na Praça Castro Alves. “É ali, do outro lado da rua, que tem um bar chamado Quintal”. Também não quero ir ao Quintal. Eu queria, de novo, era olhar, com olhos desmemoriados, cada rua, imaginando quais lugares fariam parte da minha futura vida. “Está morando aqui?”. “Ainda não”, foi o que respondi para uma conhecida no dia do concurso. Eu tinha certeza que viria: descobrir o que esconde a geografia de Salvador, a quem esta cidade seduz ininterruptamente, e de que forma. Antes do resultado do concurso, mamãe disse: “se tu for morar em Salvador...”. “Se eu for não, mãe, eu vou”, interrompi chateada. Ontem eu desdisse: “mãe, eu vou voltar, meados de maio”. Papai me alertou, “vá se despedindo da cidade pra não sentir saudades”. Nem dá, pai, a memória não deixa. Que eu queria me despedir embevecida de não saber Salvador. Mas a memória é boa. Eu queria era ter, mais uma vez, a besta alegria de reconhecer nas linhas de ônibus os bairros cantados nas músicas: Amaralina (“Qual é, baiana?”), Boca do Rio (“Domingo no Parque”), Ribeira (“Domingo no Parque”; “Qual é, baiana?”). A ingenuidade de ir à praia de Itapuã em pleno domingo; a desinformação dos ingredientes do acarajé. Não entender o que é “lá ele”; não estar acostumada à prosódia baiana. (Ouvido acostumou-se; agora, acho mais pra cantiga antiga a melodia baiana.) Saltar do ônibus no Farol, achando estar no Porto da Barra. Passar pelo Largo da Mariquita e não saber ao certo se é o da Mariquita ou o da Dinha. Eu, antes de ir embora, queria desconhecer Salvador até ficar tudo misterioso novamente. Eu queria, de despedida, a sensação de Salvador como pura possibilidade. Só apenas isso, por alguns minutos - se algumas horas for pedir demais.
Segunda-feira, Abril 20, 2009
Anunciação
pra começar
vai acabar, eu vou dizer
vai acabar, vai machucar
vai clarear a cabeça
(nada disso é pra você, de rômulo froes)
Meu projeto soteropolitano de vida pifou. Foi um ano e nove meses de cidade, mas não deu, falhou, vou voltar. Foi certo eu vir; foi bom descobrir que, por exemplo, não é tudo que eu acho normal, que há em mim princípios, humores e crenças cravadas a ferro e fogo. Mas foi doído admitir o não funcionamento do meu plano de vida em nova cidade. Não vou dar nome aos bois, mas sei direito que são daqui e de onde eu vim, os culpados; além de mim. Foi bom vir, o exílio mexe com a gente, da melhor forma - foi assim comigo. Mas exílio muito vira costume, dá amargura, e já nem se estranha mais viver só, ter dificuldade de se misturar a outras pessoas; auto-suficiência vira teorema. Graças que há dentro de mim qualquer coisa que se rebela em ciclos. Passo dias acostumada com o exílio, mas de um a cada dez, ou com mais frequência, acordo de coração engravatado, explodindo de sentimentos desmedidos, e fico num pra-lá-e-pra-cá, pensando e repensando o que fazer, como fazer. No começo era o que fazer, como fazer para realizar o projeto soteropolitano de vida. Depois foi o que fazer para permanecer, sem projeto. Depois foi a aporrinhação da dúvida: insistir ou voltar. E foram noites de insônia. E foram chopps no Spetos. E foram Skol Beats, Devassas, Casais Garcia em casa. E mesas de bar (mesa de bar é quando eu e uma amiga ficamos tomando cerveja e conversando no MSN; eu cá, ela lá). Foram manhãs acordando com o coração na mão, as mãos na cabeça - a arrancar os cabelos - e uns choros compulsivos de não saber – de não saber do que desistir, com quais possibilidades acabar. Era muito assim: de noite eu tomava a decisão; e, de manhã, desdecidia. A aceitação que meu projeto pifou, não deu certo, falhou, não calhou, não deu pé, não deslanchou, não pegou no tranco, nem com afogador, foi, se não a primeira, a segunda mais difícil resolução da minha vida. Foi como aceitar não amar mais quem eu considerava ser o amor da minha vida. Passei dias, meses, com a decisão tomada pela metade, até que, numa manhã qualquer, a caminho do trabalhado, na tranquilidade de exílio acostumado, me veio a imagem de Fortaleza amanhecendo, Fortaleza pela manhã, começando a se movimentar. Arrebatou-me uma sensação de estar lá, de volta. Foi assim que a decisão se inteirou, e, pela primeira vez, não doeu mais admitir que meu projeto soteropolitano de vida não foi como eu quis, não foi como eu pensei, foi como era pra ser: justo.
Sábado, Abril 18, 2009
Dos livros que leio

“Mas se com a idade a gente dá para repetir certas histórias, não é por demência senil, é porque certas histórias não param de acontecer em nós até o fim da vida.”
(Leite Derramado, de Chico Buarque)
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Quarta-feira, Abril 15, 2009
Quarta-feira, Abril 08, 2009
Terça-feira, Abril 07, 2009
Dos livros que leio
“Quero rir, chorar, cantar, dançar ou destruir, mas ensaio um gesto, e o braço cai, paralítico. Dir-se-ia que há em mim um processo de resfriamento periférico. Os outros têm pernas e braços para transmitir seus movimentos interiores. Em mim, algo destrói sempre os caminhos, por onde se manifestam as puras e ingênuas emoções do ser, e a agitação que me percorre não encontra meios de evadir-se. Reflui, então, às fontes de onde se irradia e converte-se numa angústia comparável à que nos provém de uma ação frustrada.”
(O Amanuense Belmiro, de Cyro dos Anjos)
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Sexta-feira, Abril 03, 2009
Efeito sexta-feira

Toda sexta-feira eu acordo jurando, de pés juntos, com toda a força naval da minha crença divina, que no fim do dia vou direto do trabalho para casa, jantar saudavelmente, e dar prosseguimento aos meus trabalhos domésticos, ou alugar um filme, ou ler um livro, como se fosse meio de semana. Enquanto eu juro, testo minha vontade contrária me imaginando sentada no Espetos ou indo tomar uma cerveja no botequim copo-sujo do fim da rua em companhia caridosa. Repudio a vontade contrária e reafirmo a história de voltar para casa, jantar e entreter-me com os planos caseiros. Até porque, argumento comigo mesma, eu já sei como é ir ao Espetos: faço mil e um auto-retratos, a solidão cresce com o efeito do álcool, volto para casa, tomo a saideira ouvindo Belchior e me perguntando até quando, e, no dia seguinte, acordo com ressaca moral por não ter evitado a ida ao Espetos - sem precisão o dinheiro e o fígado gastos num arroubo de já enjoada boemia solitária. Sei ainda mais como é ir ao bar do fim da rua: repito-me por falta de assunto e me arrependo de companhia caridosa - penso: melhor mesmo teria sido ir ao Espetos sozinha. Pois são assim minhas manhãs de sexta-feira, essa lavagem cerebral inútil. Que não adianta, por voltas das onze horas, surgem desconhecidas energias que atiçam meus desejos boêmios. Aí ficam as vontades opostas lutando dentro de mim até a vontade inicial morrer às 4 da tarde, e, antes de se enterrar, me empurrar, às 5, direto para o Espetos ou, se a solidão estiver aumentada ao ponto de dor, me fazer telefonar e insistir por caridosa companhia.
Dos livros que leio, releio, treleio

“Naquele dia entrei em sua casa com o propósito de acertar as contas e dar por encerrado aquele curso de merda. Mas antes de partir faria um pronunciamento em língua portuguesa, num português brasileiro e muito chulo, com palavras oxítonas terminadas em ão, e com nomes de árvores indígenas e pratos africanos que a apavorassem, uma linguagem que reduzisse seu húngaro a zero. Deixei de fazê-lo devido ao visível arrependimento de Kriska, que só não me pediu perdão porque inexiste tal palavra em húngaro, ou melhor, existe mas ela se abstém de usá-la, por considerar um galicismo. Como forma coloquial de se expiar uma culpa, existe a expressão magiar végtelenül büntess meg, isto é, castiga-me infinitamente, numa tradução imperfeita. Foi o que ela me disse, sabendo que eu compreenderia não as palavras, mas o sincero sentimento posto nelas. Afagou-me o rosto com a ponta dos dedos, fechou os olhos e sussurrou végtelenül büntess meg, mantendo em seguida os lábios abertos, e no meu entendimento ela pedia para eu lhe beijar a boca.”
(Budapeste, de Zsoze Kósta)
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Quinta-feira, Abril 02, 2009
Ancestralidade
Para a missa de ressurreição da minha avó, alguns parentes escreveram pequenas biografias para homenageá-la. Eu não estive em nenhuma das três missas – incompatibilidade geográfica -, mas recebi quatro biografias por e-mail.
Papai, que tem um olhar crítico para biografias apaixonadas, pediu-me uma análise comparativa. Arrumação dele, mas acabei fazendo, sempre lembrando que toda pessoa, quando se vai, vira - inevitavelmente - mito. Ora pois, jeito não houve. Passionais ou não, a altivez da vovó está muito clara em todas as biografias, até na do papai, que pelejou para pisar devagar. (O papai pensa como eu, há coisas que não precisam ser exageradas - saltam aos olhos.) A enxurrada de características atribuídas à vovó estava, à maneira de cada autor, em todos os textos: personalidade forte, convicção religiosa, caráter inabalável, política ardorosa, católica fervorosa, franca e destemida, altiva e resoluta, determinada e corajosa. Não cabe desmitificação, ela foi, intensamente, tudo isso.
A vovó nasceu numa fazenda no sertão norte do Ceará, onde ainda hoje é um fim de mundo, além de ter sido um dos principais cenários da minha infância. Foi professora, casou-se com um amável (e estressado) agrimensor e teve sete “jóias preciosas”, como ela se referia aos filhos. E daí vieram 19 netos, de onde vieram quatro bisnetos, o último nascido no dia de sua morte, e que vem a ser meu primeiro sobrinho (ôge bu-bu-bu). Mas voltando. A convicção da vovó para com seus princípios e valores era assustadora. Até os últimos dias, por exemplo, ela debulhava um rosário, convicta de que naquela reza ininterrupta estava sua remissão para qualquer pecado que desconfiava ter cometido. Nas visitas diárias do papai à casa dela, ele lhe fazia mil e uma perguntas na tentativa de despertá-la do mundo no qual estava mergulhada. Vovó não dava a mínima, fazia um olhar como que dando desimportância ao papai, baixava a cabeça e não perdia, jamais, o fio do rosário - a convicção última, que nem a idade, nem a memória nebulosa, nem o corpo parado numa cadeira, nem a perda da força de expressão comprometida por um derrame conseguiram abrandar.
Em tudo, a vovó botava essa convicção e, inegavelmente, fez da vida dela um acontecimento. Coisa que, para além do orgulho que sinto, dá-me, ambiguamente, uma sensação de miudeza. Hoje ainda não tenho uma faísca de saber por onde começar a fazer da minha própria vida um acontecimento que se preze. E custa-me desconsolo não ter herdado da vovó nem um terço dessa assustadora convicção. Para completar, um primo, numa das biografias - a única escrita por um neto -, nos jogou o peso nas costas: “somos parte de um projeto de vida que deu certo efetivamente”. Resta-nos, então, não sermos esmagados antes de extrair dessa ancestralidade o mínimo de força vital. Eis a nossa cruz.
Papai, que tem um olhar crítico para biografias apaixonadas, pediu-me uma análise comparativa. Arrumação dele, mas acabei fazendo, sempre lembrando que toda pessoa, quando se vai, vira - inevitavelmente - mito. Ora pois, jeito não houve. Passionais ou não, a altivez da vovó está muito clara em todas as biografias, até na do papai, que pelejou para pisar devagar. (O papai pensa como eu, há coisas que não precisam ser exageradas - saltam aos olhos.) A enxurrada de características atribuídas à vovó estava, à maneira de cada autor, em todos os textos: personalidade forte, convicção religiosa, caráter inabalável, política ardorosa, católica fervorosa, franca e destemida, altiva e resoluta, determinada e corajosa. Não cabe desmitificação, ela foi, intensamente, tudo isso.
A vovó nasceu numa fazenda no sertão norte do Ceará, onde ainda hoje é um fim de mundo, além de ter sido um dos principais cenários da minha infância. Foi professora, casou-se com um amável (e estressado) agrimensor e teve sete “jóias preciosas”, como ela se referia aos filhos. E daí vieram 19 netos, de onde vieram quatro bisnetos, o último nascido no dia de sua morte, e que vem a ser meu primeiro sobrinho (ôge bu-bu-bu). Mas voltando. A convicção da vovó para com seus princípios e valores era assustadora. Até os últimos dias, por exemplo, ela debulhava um rosário, convicta de que naquela reza ininterrupta estava sua remissão para qualquer pecado que desconfiava ter cometido. Nas visitas diárias do papai à casa dela, ele lhe fazia mil e uma perguntas na tentativa de despertá-la do mundo no qual estava mergulhada. Vovó não dava a mínima, fazia um olhar como que dando desimportância ao papai, baixava a cabeça e não perdia, jamais, o fio do rosário - a convicção última, que nem a idade, nem a memória nebulosa, nem o corpo parado numa cadeira, nem a perda da força de expressão comprometida por um derrame conseguiram abrandar.
Em tudo, a vovó botava essa convicção e, inegavelmente, fez da vida dela um acontecimento. Coisa que, para além do orgulho que sinto, dá-me, ambiguamente, uma sensação de miudeza. Hoje ainda não tenho uma faísca de saber por onde começar a fazer da minha própria vida um acontecimento que se preze. E custa-me desconsolo não ter herdado da vovó nem um terço dessa assustadora convicção. Para completar, um primo, numa das biografias - a única escrita por um neto -, nos jogou o peso nas costas: “somos parte de um projeto de vida que deu certo efetivamente”. Resta-nos, então, não sermos esmagados antes de extrair dessa ancestralidade o mínimo de força vital. Eis a nossa cruz.
Segunda-feira, Março 30, 2009
Dos livros que leio
"O mais pesado fardo nos esmaga, nos faz dobrar sob ele, nos esmaga contra o chão. Na poesia amorosa de todos os séculos, porém, a mulher deseja receber o peso do corpo masculino. O fardo mais pesado é, portanto, ao mesmo tempo a imagem da mais intensa realização vital. Quanto mais pesado o fardo, mais próxima da terra está nossa vida, e mais ela é real e verdadeira.
Por outro lado, a ausência total de fardo faz com que o ser humano se torne mais leve do que o ar, com que ele voe, se distancie da terra, do ser terrestre, faz com que ele se torne semi-real, que seus movimentos sejam tão livres quanto insignificantes."
(A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera)
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Terça-feira, Março 24, 2009
Segunda-feira, Março 23, 2009
Por força*
"Morrer, só se morre só. O moribundo se isola numa redoma de vidro, ele e a sua agonia. Nada ajuda nem acompanha." (Rachel de Queiroz)
Sábado a vovó morreu. Dias antes, já no hospital, ela agarrou minha mão e fitou-me os olhos. Nunca vou saber se ela recordava eu ser eu. Quando abria os olhos e reagia aos apelos por um aperto de mão, vovó estava visivelmente em outro tempo, num mundo só dela. Quando a gente pensava que ela não mais conseguiria se manter viva, ela melhorava. Quando ela melhorava, piorava ainda pior em seguida. E foi-se indo, aos poucos, a segunda personagem das manhãs semanais da minha infância, quando, depois do colégio, eu ia para a casa dela, tocava a campainha avexada, abraçava o vovô - que morreu há três anos - e corria para a cozinha. Quando não era por tijolinho de leite, era por doce de leite que eu a perturbava. Era como a vovó se aproximava de mim, já que nunca foi de paparicos com os netos, nem com os filhos. Ela era sempre sóbria - até no nome: Maria Menezes -, orgulhosa, quase inatingível, um exemplo de como sempre viver por cima da carne seca.
* “Por força” é uma das expressões que a vovó mais usava e, de tanto eu falar, alguns dos meus amigos adotaram.
Sábado a vovó morreu. Dias antes, já no hospital, ela agarrou minha mão e fitou-me os olhos. Nunca vou saber se ela recordava eu ser eu. Quando abria os olhos e reagia aos apelos por um aperto de mão, vovó estava visivelmente em outro tempo, num mundo só dela. Quando a gente pensava que ela não mais conseguiria se manter viva, ela melhorava. Quando ela melhorava, piorava ainda pior em seguida. E foi-se indo, aos poucos, a segunda personagem das manhãs semanais da minha infância, quando, depois do colégio, eu ia para a casa dela, tocava a campainha avexada, abraçava o vovô - que morreu há três anos - e corria para a cozinha. Quando não era por tijolinho de leite, era por doce de leite que eu a perturbava. Era como a vovó se aproximava de mim, já que nunca foi de paparicos com os netos, nem com os filhos. Ela era sempre sóbria - até no nome: Maria Menezes -, orgulhosa, quase inatingível, um exemplo de como sempre viver por cima da carne seca.
* “Por força” é uma das expressões que a vovó mais usava e, de tanto eu falar, alguns dos meus amigos adotaram.
Quinta-feira, Março 12, 2009
Dos blogs que leio
Continuo achando que a literatura deve ter como referência a reflexão crítica. Que não interessa às massas, ávidas que são por novas massagens egóicas produzidas pelo leque apaziguador dos consensos. Pode vender milhões, pode encher o bolso dessa gente de dinheiro... mas não será literatura, porque literatura não é o que vende. É o que, como coloca o José Castello em seu texto da semana passada, fura nossas seguranças e, num rasgão, expõe a fogueira na qual ardemos.
"No esforço inútil de "ser igual", ilusão nefasta das identidades", o neurótico das massas pula de best-seller em best-seller. Atrás de si mesmo, em busca de suas próprias certezas inúteis. Como lembra bem o Magno, tudo aquilo que todo mundo já entendeu muito bem acaba caindo na mediocridade (Estética..., p. 34). E é por isso que vivemos num mundo medíocre. A "arte-mercadoria" (com o perdão do contrasenso) não corrompe, não inunda, não decompõe nada. Apenas ressoa, como os passos em marcha do exército de clones da eterna e irresponsável juventude. Sentido!! Ordinário, leia!!
(Impostura, de Marcelo Henrique Marques de Souza)
*
E faz sentido, a essa altura, lutar contra a força do mercado? Acho que sim: o mercado, como o famoso escorpião da anedota, acaba de mostrar ao mundo a que veio. É possível que, amanhã, a tecnologia mude de tal forma os paradigmas, que livros e livrarias se tornem obsoletos. Até lá, porém, muitos petabytes ainda vão correr pela internet. Por enquanto, as livrarias, assim como a floresta amazônica ou o mico leão dourado, merecem os nossos melhores cuidados e carinhos.
(internETC, de Cora Rónai)
*
Livros, como filmes, não são apenas produtos comerciais, nem mercadorias comuns: são elementos com valor simbólico, estratégicos na afirmação de nossa identidade cultural e na formação da consciência crítica da sociedade. Exigem, portanto, políticas públicas enfáticas, em duas frentes: fomento e regulação. É preciso estimular o desenvolvimento da indústria editorial, levando a maiores tiragens e formação de uma base crescente de leitores, fomentando a demanda por bons livros, o que será bom para todos. Mas também é preciso cuidar para que haja diversidade na produção editorial, evitando que as livrarias se transformem em supermercados de best-sellers, enquanto relevantes ensaios e obras de ficção mais séria ficam confinados a uma existência quase confidencial.
(máquina de escrever, de Luciano Trigo)
"No esforço inútil de "ser igual", ilusão nefasta das identidades", o neurótico das massas pula de best-seller em best-seller. Atrás de si mesmo, em busca de suas próprias certezas inúteis. Como lembra bem o Magno, tudo aquilo que todo mundo já entendeu muito bem acaba caindo na mediocridade (Estética..., p. 34). E é por isso que vivemos num mundo medíocre. A "arte-mercadoria" (com o perdão do contrasenso) não corrompe, não inunda, não decompõe nada. Apenas ressoa, como os passos em marcha do exército de clones da eterna e irresponsável juventude. Sentido!! Ordinário, leia!!
(Impostura, de Marcelo Henrique Marques de Souza)
*
E faz sentido, a essa altura, lutar contra a força do mercado? Acho que sim: o mercado, como o famoso escorpião da anedota, acaba de mostrar ao mundo a que veio. É possível que, amanhã, a tecnologia mude de tal forma os paradigmas, que livros e livrarias se tornem obsoletos. Até lá, porém, muitos petabytes ainda vão correr pela internet. Por enquanto, as livrarias, assim como a floresta amazônica ou o mico leão dourado, merecem os nossos melhores cuidados e carinhos.
(internETC, de Cora Rónai)
*
Livros, como filmes, não são apenas produtos comerciais, nem mercadorias comuns: são elementos com valor simbólico, estratégicos na afirmação de nossa identidade cultural e na formação da consciência crítica da sociedade. Exigem, portanto, políticas públicas enfáticas, em duas frentes: fomento e regulação. É preciso estimular o desenvolvimento da indústria editorial, levando a maiores tiragens e formação de uma base crescente de leitores, fomentando a demanda por bons livros, o que será bom para todos. Mas também é preciso cuidar para que haja diversidade na produção editorial, evitando que as livrarias se transformem em supermercados de best-sellers, enquanto relevantes ensaios e obras de ficção mais séria ficam confinados a uma existência quase confidencial.
(máquina de escrever, de Luciano Trigo)
Segunda-feira, Março 09, 2009
Na livraria
Depois de ter procurado e não encontrado o livro que eu queria, fui atrás de uma esperança no estoque.
Eu: Moça, boa tarde, será que você poderia ver se tem um livro chamado "O Livro do Desassossego"?
E a moça vendedora da maior livraria desta cidade digitou no computador:
O LIVRO DO DESASUCEGO.
Eu: Não, moça...
Ai.
Não tinha mesmo o livro, e fui atrás de outro, que também não encontrei e fui ver com a vendedora - dessa vez era outra - se o estoque ia me acudir:
Eu: Moça, boa tarde, será que você poderia ver se tem um livro chamado "Persuasão"?
E a moça digitou no computador:
PERSOAZÃO.
Eu: Não, moça...
Ai.
Também não tinha. Nenhum dos dois, mesmo escritos corretamente.
Eu não queria, mas às vezes dá vontade de viver só de comércio eletrônico.
Eu: Moça, boa tarde, será que você poderia ver se tem um livro chamado "O Livro do Desassossego"?
E a moça vendedora da maior livraria desta cidade digitou no computador:
O LIVRO DO DESASUCEGO.
Eu: Não, moça...
Ai.
Não tinha mesmo o livro, e fui atrás de outro, que também não encontrei e fui ver com a vendedora - dessa vez era outra - se o estoque ia me acudir:
Eu: Moça, boa tarde, será que você poderia ver se tem um livro chamado "Persuasão"?
E a moça digitou no computador:
PERSOAZÃO.
Eu: Não, moça...
Ai.
Também não tinha. Nenhum dos dois, mesmo escritos corretamente.
Eu não queria, mas às vezes dá vontade de viver só de comércio eletrônico.
Sábado, Fevereiro 28, 2009
Dos livros que leio

“O que me oprime numa viagem é a identificação do que vou sentir. Encanto, euforia, tristeza? Tudo ao mesmo tempo. Contemplo um território desconhecido, mas o meu corpo é o mesmo, e ele mantém a referência de uma paisagem interna, que prevalece; é tão absoluta que não posso olhar nada sem comparar com essa memória residual. Durante as duas viagens, sentia-me uma escultura fora de seu museu de origem, em exposição itinerante por outras galerias, deslocado, sem foco.”
(Galiléia, de Ronaldo Correia de Brito)
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